Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Ponte Romana – que futuro?

Ponte Romana de Trajano e Dignidade.
 
A Ponte Romana de Trajano, um dos vestígios mais evidentes da civilização romana na cidade de Chaves e no país, esta a ser requalificada.
 
Para o efeito. a Câmara Municipal de Chaves abriu, por carta convite, concurso limitado (1) tendo como objecto a adjudicação da empreitada “Requalificação do Pavimento e das Infra-Estruturas da Ponte Romana – Chaves – Travessia da Conduta sob o Rio Tâmega na Ponte Romana”.
 
A “Carta de ICOMOS 2003” determina que «As obras de conservação e requalificação só devem ser entregues a pessoas competentes nessas actividades(1) Não me parece ter sido comprida esta formalidade.
 
O lançamento do concurso (limitado ou público), deveria ter sido de acordo com as normas internacionais e os instrumentos legais. De facto, uma intervenção num monumento classificado não é um processo linear.
Anote-se que não se tratava de uma simples empreitada de construção civil, mas sim de uma empreitada levada a cabo num monumento sobre o que deviam recair responsabilidades acrescidas, uma vez que é nosso dever preservá-lo e transmiti-lo a gerações futuras em perfeitas condições.
 
O Município de Chaves adjudicou às empresas “Sincof, Sociedade Industrial de Construções Flavienses, Lda.” e “Anteros Empreitadas, S.A”, a execução da referida empreitada que contaram com um pressuposto de 363.514,15 euros devendo ficar concluída no fim deste mês de Junho.
 
 

 
As obras consistiram nos seguintes trabalhos: Retirada de uma conduta de água que, devido ao seu peso, estaria a pôr em causa a segurança da Ponte Romana; Alteração da rede de drenagem de águas pluviais, Pintura do gradeamento em ferro da ponte; Remodelação das redes eléctricas e telecomunicações.
 
As alterações realizadas, nomeadamente a nível do pavimento do tabuleiro, são favoráveis à sua total pedonalização, ao contrário do que acontecia até agora. O anterior pavimento (paralelepípedo) foi substituído por lajeado de granito claro de grão fino com corte industrial, com o desnível anteriormente existente entre os passeios e a faixa de rodagem a desaparecer. "É uma intervenção que facilitará a sua pedonalização", disse o arquitecto Malheiros.
A memória descritiva do projecto de requalificação da Ponte Romana prevê que após a conclusão das obras, a Ponte não voltaria a ser aberta ao tráfego automóvel.
 
No entanto, politicamente, pelo menos em termos temporais, a decisão de retirar definitivamente o trânsito do local ainda não está tomada.
 
Trânsito na Ponte Romana não vai a referendo
A maioria PSD da Câmara Municipal de Chaves não aprovou a proposta do PS para a realização de um referendo sobre o trânsito automóvel na Ponte Romana, agendada na última reunião de Câmara.
 

Não se justifica nesta situação”, assumiu, o presidente da Câmara, João Batista, revelando que a decisão será tomada pela autarquia e irá pesar vários factores. Além de um estudo técnico (2) que está a ser feito e que se prende com a avaliação do trânsito na travessia em termos de segurança, João Batista anunciou que irá também ser tido em conta a posição do Ministério da Cultura, que tutela este monumento nacional. A decisão deverá ser tomada até ao final do mês, altura em que se prevê que a intervenção na infra-estrutura esteja concluída.
 
As circunstancias que tem envolvido o processo de Requalificação da Ponte Romana de Trajano traduzem um desafio á dignidade dos Flaviense que tem assistido á progressiva destruição do seu património.
 
O que tenho lido e escutado, estes dias, a favor da continuação do trânsito rodoviário na Ponte Romana de Trajano, são autênticas barbaridades, que pouca formação cultural tem alguma gente desta cidade! È caso para dizer que há alguns “habitantes” de Chaves que tem “uma aduela a menos”.
 
Esta na hora de dar a minha opinião, que é a da maioria da população, autenticamente Flaviense, pois não sendo perito, compreendo um pouco de arte e arqueologia, por ser um mundo que me apaixona, para o que tenho certo olho crítico e ante o qual evidentemente me permito opinar com argumentos válidos e contrastados alem de um pouco de sã informação sem qualquer interesse partidário, eleitoral ou comercial.
 
A palavra «Requalificação» no contexto deste trabalho será tratada como “re-qualificação”, no sentido de dar ênfase ao prefixo “Re” que significa “de novo” e, também, ao verbo “qualificar” no sentido de ser uma acção que enobrece e classifica a obra como única e com isso instaura um significado.
Falar em Requalificação implica admitir que os monumentos deixaram de estar preparadas para alguma coisa (trânsito rodoviário), que houve desvio de alguma finalidade.
 
Estudo Técnico.
Intervenções e Anomalias Observadas
A ponte Romana de Trajano, foi construída, há mais de 19 séculos, para suportar determinadas finalidades e suporte de pesos.
Desde então tem vindo a suportar, alem das inclemências do tempo, os danos causados pelos homens.
 
Entre eles conta-se o peso extra dos prédios que foram construídos em cima dos seus arcos, o peso do alargamento do seu tabuleiro e, sobre tudo, o peso do trânsito rodoviário e, actualmente, a eliminação do desnível anteriormente existente entre os passeios e a faixa de rodagem.
 
Em 1980 / 1982 a Câmara Municipal de Chaves (Manuel Branco Teixeira) sem conhecimento do IPPC e da DGEMN; IPPAR, procedeu ao desassoreamento, do rio e remoção do lajeado assente junto aos quebra-rios.
 
 

 
A realização das escavações junto aos arcos da ponte conduziu à descompressão do terreno e ao descalçar das fundações. O resultado foi desastroso para o monumento romano pois optaram por colocar cimento para reforço dos pilares.
 
 

 
O director regional IPPAR classificou como “muito grave” a “reparaçãocom cimento da Ponte Romana de Trajano.
 
 

 
O revestimento das sapatas com cimento, é o maior veneno do património. É um processo irreversível. Aliás, em contacto com a humidade forma um ácido que ataca a pedra.
Segundo aquele responsável, devia ter sido usado “o mesmo tipo de cimento que era fabricado pelos romanos”, mantendo os materiais ancestrais.
Os técnicos (empreiteiros) envolvidos nestes trabalhos continuam a agir sem sentido de responsabilidade e qualificações para este tipo de obras.
 
 

 
Pequenos espeques ou esteios de carvalho, enterrados junto aos alicerces dos dois arcos junto ao bairro da Madalena – são possíveis testemunhos das obras efectuadas de 1788.
 
Diz a CARTA DE ICOMOS 2003 nos seus princípios e Critérios gerais:
- « É essencial ter informação sobre a estrutura, nos seus estados original e primitivo, sobre as técnicas que foram usadas na construção e nas alterações, e sobre os seus efeitos, sobre os fenómenos que possam ter ocorrido e, finalmente, sobre o seu estado presente
 
- «Quando é proposta uma qualquer alteração do uso ou das funções, devem ser cuidadosamente tidos em consideração todos os requisitos e condições de segurança»;
 
- «Devem ser plenamente estabelecidas as características dos materiais usados nos trabalhos de restauro (em particular dos materiais novos) e a sua compatibilidade com os materiais existentes.
Isto deve incluir os impactos a longo prazo para que sejam evitados os indesejáveis efeitos colaterais».
 
2008 – Requalificação do pavimento da Ponte
Não existiu uma campanha de prospecção organizada, a informação que recolhi resultaram da observação das escavações levadas a cabo para a remoção das condutas de água para o bairro da Madalena, a colocação das condutas de aguas das casas assentes na ponte, e de uma vala de colocação das tubagens de comunicações, iluminação e aguas pluviais junto à face interior das aduelas dos arcos da ponte.
 
Anomalias observadas: A Ponte apresenta um conjunto de anomalias estruturais e não estruturais das quais se abordaram apenas as primeiras.
 
 

 
Essencialmente, o aspecto que justificava maior preocupação relaciona-se com a fragilização das "aduelas", que fecham os arcos, com destruição ou danificação de pedras que indiciam a rotura estrutural das alvenarias constituintes e a ocorrência de movimentos de deformação muito significativos. daí resultando que este aspecto seria essencial para o conjunto de acções que deveriam ter sido empreendidas, para restituir a esta parte dos arcos da Ponte a integridade estrutural necessária de forma a resistir com segurança a fenómenos correntes e extraordinários e ao peso extra dos prédios que foram construídos em cima dos seus arcos.
 
As “Abóbadas” dos Arcos da Ponte de Trajano estão seriamente danificadas.
 

Em primeiro lugar a espessura inconstante em toda a abóbada e nas "aduelas" interiores reduziram a espessura e rigidez da estrutura.
 

Já em 1721, Tomé de Távora e Abreu tinha advertido que as «Abóbadas dos arcos da ponte estavam em ruína».
 

A desaparição de muitas Pontes Romanos foi devida maioritariamente ao colapso das suas abóbadas por um incorrecto desenho ou por não suportar as cargas actuantes.
 

Não foram aproveitadas as obras de requalificação para executar as pertinentes obras de Consolidação e Restauro.
 
Um dos principais objectivos da «Requalificação» teve como finalidade aliviar o peso que a estrutura da ponte estava a suportar (retirada da conduta de água) e que estaria “a pôr em causa a segurança da Ponte Romana”.
 

 

Logo, não se entendem os “princípios técnicos” que fundamentam as opções, entretanto tomadas, de eliminar o desnível anteriormente existente entre os passeios e a faixa de rodagem.
 

Para elevar o pavimento da calçada teve que se preencher o espaço necessário, (12 a 14 centimetros) com “Brita” e “Cimento”.
Os passeios também foram elevados entre 4,5 e 6 cm.
 
Tudo isto acarretou um aumento considerável de peso (algumas toneladas) sobre as estruturas da Ponte Romana.
 

Os materiais e técnicas empregues na requalificação do Tabuleiro da Ponte de Trajano não foram os mais adequados.
 
CARTA DE ICOMOS 2003 - «As alterações, e principalmente os aumentos das cargas, são origens de esforços aumentados e, por isso, de danos na estrutura
 
Estas alterações na estrutura, também podem ser uma causa de danos estruturais e perigo de colapso ao resultarem em esmagamento, ruína, fragilidade, etc. Estas situações são particularmente perigosas porque acontecem habitualmente com pequenas deformações e com poucos sinais visíveis.
 
Aplicando a análises aos arcos romanos, cuja estabilidade se estabelece em função de um coeficiente de segurança definido como o cociente entre a espessura real e o estritamente necessário para suportar em equilíbrio as cargas mortas e a situação de uma sobrecarga pontual conhecida aplicada, as sobrecargas aplicadas actualmente a Ponte Romana, são muito superiores as habituais da época da sua construção.
 
A Ponte Romana de Trajano suporta, neste momento, muito mais peso do que o que tinha antes das obras de Requalificação.
 
Outra das críticas da «Requalificação» tem vindo da mudança do material do pavimento da calçada da ponte, pois o granito de grão fino cortado de una maneira denominada "industrial" tem sido reprovado quase de forma unânime, ainda que a decisão de o utilizar obedeceu a que responde ao uso pedonal a que esta(va) destinado.
 

 

Este era o Pavimento Original utilizado no tabuleiro da Ponte de Trajano.
 
O actual piso da ponte é Romano? Alguém deveria dar-lhes umas pequenas noções das características da arquitectura romana a estes "modernistas" da política.
 

A mudança do pavimento da calçada, devia ter tido em conta o aspecto e a forma que se há conhecido mediante as pesquisas arqueológicas.
 
O futuro da ponte romana está a gerar uma grande discussão e mobilização da sociedade pública, tendo levado à criação de várias iniciativas cívicas, a favor da pedonalização da Ponte Romana de Trajano. Em defesa da total pedonalização já surgiu o movimento "Pont’ a Pé".
 

Na “Internet” foi, inclusivamente, criado uma Plataforma de voto. Ao final da tarde de ontem, já tinham votado 4.487 pessoas, a grande maioria contra o trânsito (3.645).
 

O “Semanário Transmontano” na sua edição na “Net” disponibilizou dois “Inquéritos” para sondar a opinião pública.
 
Essa lição da força dos monumentos e dos valores a eles inerentes criou-a Alexandre Herculano nos anos dramáticos do Setembrismo, quando resolveu romper as amarras do mercantilismo burguês, numa das primeiras acções populares em prol do património cultural do nosso país.
 
Só não vê isto (ou não quer ver) quem lhe convém outra coisa, por ter interesses pessoais ou políticos a salvaguardar.
 

Não sabemos o que vai ser feito com a nossa Ponte Romana, não sabemos se vai continuar a ser permitido o trânsito rodoviário, se vamos permitir apenas o seu uso pedonal ou, se mais comodamente, fingimos que a ponte Romana não existe na cidade do Chaves.
 
Se, por uma fatalidade de que Deus nos defenda, a cidade de Chaves fosse inteiramente destruída, a não ficar pedra sobre pedra… os meios intelectuais portugueses e estrangeiros lamentariam, mesmo que todos lhe sobrevivêssemos, a perda irreparável da “Ponte Romana de Trajano”.
 

Arrepie-se caminho, enquanto é tempo! O risco de Colapso da Ponte Romana é elevado.
 

 

publicado por Flaviense às 01:12
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3 comentários:
De hpserra a 27 de Junho de 2008 às 09:08
Em primeiro lugar, parabéns por este excelente artigo, está muito bem argumentado/fundamentado/pormenorizado, mas fica uma pergunta: se os arcos da Ponte sofrem do tal problema, mesmo que lhe devolvessem tal pavimento orginal(lajes), não se mantería o tal problema do colapso? Eu penso que sim.
De Flaviense a 29 de Junho de 2008 às 16:14
Amigo hpserra
Naturalmente que o problema de colapso se manteria se tivesse sido colocado o pavimento com a forma original.
O problema, principal, não é das lajes de granito, com corte “industrial” ou a imitar o “original”. O peso seria o mesmo.
O grande problema reside em que não se aproveitou as obras de requalificação para reparar e consolidar as estruturas da Ponte Roma.
Isto, devido a pressões constantes de alguns “comerciantes” do bairro da Madalena, que não queriam ver fechado o trânsito por muito tempo, conforme me foi confidenciado por pessoas envolvidas no projecto de requalificação.
A “arqueóloga” que procedia á recolha de dados sobre a Ponte Romana, sentiu essas mesmas pressões.
Os “Ignorantes” não entendiam nem toleravam que se perdesse muito tempo com “Umas pedras velha sem valor nenhum”.

Não se sabe o estado em que estão os pilares da Ponte. O cimento foi injectado há 26 anos e não sabemos os danos que esse cimento terá ocasionado até agora.

Não se aproveitou para reparar a parte central dos arcos e recolocar as pedras das abóboras danificadas, quando da colocação e retirada, da conduta da água para o bairro da Madalena.
Não foram reparadas as “Aduelas” de fecho dos Arcos com o corte de grande numero das suas pedras (reduzindo a espessura e resistência para metade), para passar as condutas de águas pluviais, condutas de abastecimento de água e telefones, para as casas assentes nos arcos e que poderiam (deveriam) ter sido retiradas para as ruas das traseiras dessas mesmas casas.
E principalmente o erro crasso de elevação do tabuleiro da ponte em cerca de 15 a 18 centímetros, que veio acarretar um peso extra de Muitas Toneladas, sobre as estruturas da Ponte. Peso este muito superior ao anteriormente existente com o Trânsito Rodoviário.
Se for autorizado, novamente, o acréscimo de peso do trânsito rodoviário… Aguentará?

Incrivelmente, já ouvi alguns “políticos” a advogar que se “deve manter o trânsito na Ponte Romana até ela apresentar sinais “visíveis” de perigo de colapso!”
De hpserra a 1 de Julho de 2008 às 10:14
Bom, a ser verdade o que o meu amgo diz, o que tudo indica que é, trata-se de uma cambada de calhaus, desde os comerciantes aos "políticos", só têm água e areia na cabeça, sendo a água choca e areia grossa( mas mesmo muito!!). Um monumento tão importante como a Ponte Romana merece respeito, e preservar património histórico é um dever, quem é insensível a esse dever, é no mínimo um labrego. Tería tanto para dizer que nunca mais me calava, só deixo aqui uma pergunta: que autoridade e que critério tem uma instituição chamada IPPAR? Será que tem dois pesos e duas medidas? Penso que sim.

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